Após a chegada, a decisão mais difícil foi mandar Afonsina embora. Ela não esperava por isso. Nós também não. Mas foi preciso. E eu, que já me acostumara à ausência dela, me dei por vencido e desandei a chorar. Hoje, quando me sento à noitinha para ler, no jardim, é com as folhas, que a brisa derruba, que me vejo a conversar. Não há diálogo. Somente a sombra de Afonsina, me pedindo para ficar.
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
Afonsina
Medo
Vence o medo e dispara. A porta se fecha, ela aparece, ainda molhada, respingos machucando o chão. Vai ao toucador e da cestinha retira a cápsula. Na mesa da cozinha, os abacaxis de sempre. É cedo ainda. Pensa em Neusa, na manhã quase dezembro, os seios explodindo na blusa apertadamente negra. Espera o fim do programa e sai. Mas é Magda quem chega. Desliga o rádio, engole o café, volta à cama e se embrulha novamente.
Péricles
Apesar da cegueira, lia. Em segredo, deglutia palavras, porém – do que mais gostava, era de pontos de exclamação. Vírgulas não desciam mal, reticências eram sempre bem-vindas, hífens e acentos circunflexos lhe coçavam a garganta, interrogações davam azia. Dia seguinte, empanturrado, descansava. Páginas em branco, Péricles, quando todos dormiam, compunha novas histórias. Sem fim e perenes.
Fogo
Não era fogo. Chama e fumaça, não queimava nem aquecia nossa pele. Ficava ali, crepitando, sem estalar, luz a dizer: estou aqui. Mas não era. Ardia, e – açoitado pelo vento, contorcia-se, vergava, sumia, não apagava. Estava lá, bem aceso, a noite por companheira. Não se alastrava. Quietamente, deixava-se consumir, vermelho-amarelo-vermelho, cor de fogo, mas não era. Silhueta, apenas. Sombra. Solidão... Fogo não era.
Rute
Farto da leitura, deixou-se ali. Lembrou de Rute, tempo que não se viam. Ela chegou, foi passando e – da janela, murmurou: vem. Quisera ir, mas pensou magoá-la, rejeitando-lhe o convite. Viu a mulher desconfiar. Haveria outra ali? Riu da brincadeira. Gostava disso, fazia-lhe bem. Fechou-se novamente. Veio o cão e aquietou-se por ali. Esqueceu que amava aquela mulher.
Aurora
Passada a hora, ei-la... “A vida é nítida como um grito de pássaro”, diz o poeta, mas ela nem liga para isso. Ela é o poema, que a noite inverteu. Aprisionado, concluí que sem mim não velariam direito a Rosa, escapada à manhã. Sem o sol, velejariam, mas sem direção. Por isso, fiz descer a noite, e – antes que Aurora dormisse, dominei a calmaria e encalhei nas coxas, que ardiam.
