Venço a noite, que amanhecia, e de suas entranhas recolho o hálito dos cães, que purgavam nossas chagas. Eu era a foice, ceifando os sonhos dos que não se deixavam dormir...
Dessa guerra em diante, perambulo bosques e avenidas, amaldiçoando os que abençoam e ferindo os que cuidam de mim. Sou a perniciosidade das mães, que enfrentam a mansidão de lagos e manhãs...
Tolos faziam seus mortos subirem a telhados, sobejos se aglomeravam por caminhos e tanques, andrajos imploravam para ser vara, incréus me pediam as mãos para ver...
Eu ia à esquina e colocava algo no estômago e lembrava as moscas, que voejavam nossos quartos largados na estrada. Reconheço aqui uma tíbia. Ali, a pelve e os pelos de sovacos...
E – antes que refizesses a cama, pedia que te prevenisses. Mas tu, que atiravas às flores tuas pétalas, desfazias-te das trapaças deixadas em casa, quando vinhas me encontrar. Ele chorava, mas que podias fazer?
Em seguida, encaixávamos nossos braços e saíamos como se houvéssemos. E – de longe, ouvíamos as lamúrias, que ressurgiam a nos assustar. Eu – então, perguntava: que fim levou? Silêncio, nada respondias...
Mas, quando se aproximava a hora de voltar, já não eras mais tu, que eu ouvia. Era a noite vencida, trespassada, que me alcançava, e sorrindo desse infortúnio, fecundava a manhã...
A manhã, que nem eu sentia.
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terça-feira, 30 de março de 2010
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
Laíde V
Somente eu sei o que se passou naquela noite. Não aconteceu nada, mas, daí em diante, muita coisa mudou. Essa é a história não contada, quando fui preso, na delegacia de polícia. Matei Laíde, sem constrangimento, e escondi o corpo no bolso da calça, que ela vestira. Não me arrependo e a tornaria matar, se não estivesse aqui, preso por crime não cometido. Quando entramos no quarto, Laíde já era morta. Eu não sabia. Ela tramara tudo. Como foi sabida! Na saída, ainda me acenou, antecipando o que viria depois.
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