quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Luciana III

Não foi difícil convencer Luciana de que o marido dela era um bosta. Ela até o considerava assim. Em pouquíssimas palavras, contou-me sua história. Ora, por conta disso, concluí que o cara merecia... Ele, porém, não se incomodava muito com isso, mantendo sobre Luciana forte repressão. Ela, porém, não era tão burra como ele pensava, e sempre dava um jeito de ludibriá-lo. Quando a conheci, me disse que ia visitar uma amiga. Acreditei, mas o beijo de despedida – ainda que rápido, me disse que não.

Luciana II

Estudava para cabeleireira – me disse, acrescentando: estava quase para se formar. O marido, porém, não concordava. Não, ainda não haviam se separado, mas – mesmo assim, ia traí-lo. Nesse dia, Luciana parecia preocupada. Senti que fugia, mentindo. Daí, a viagem, que deveria ser breve. Na manhã seguinte, telefonei. Não atendeu. Tempo depois, a encontro, e quase não a reconheço. E, para provar que sabia, aparou-me os cabelos... Sob o vigilante olhar do marido.

Luciana

Era disso que precisava. No banheiro, lembrou de Luciana, os olhos infinitamente fendendo os lados; as mãos, vagando, na aparência; a boca, enlanguecidamente injetada de sedução. Faltava a viagem, porém. A viagem que selaria o acordo de antanho. Mas não era isso que o preocupava. E se Júlia voltasse a tempo? Fechou o chuveiro e esperou a toalha, que a mulher demorava a trazer.

Salustiana V

Certa vez vi Salustiana com raiva. Eu não fizera nada, mas ela não pensava assim. Chorou. Aliás, ela sempre chorava, quando se sentia desprezada. Eu nunca a desprezei. Disse-se cansada, e que não me entendia. Na véspera, estivéramos juntos, quando então lhe dei sete tiros, e fugi. Matei-a em legítima defesa, pois, Salustiana, aborrecida, tornava-se frágil, o que a deixava mais perigosa. Naquela noite, o marido não se despediu de Salustiana, certo de que, na volta, a encontraria do mesmo jeito. Ela, porém, passou direto para o quarto.

Salustiana IV

Para valer, mesmo, a primeira conversa foi em um restaurante, onde ela bebeu refrigerante, e eu, água mineral. Nessa mesma noite, porém, Salustiana ainda me surpreenderia. E eu, que não pretendia cometer o mesmo erro de Laíde, me dispus esperar. Salustiana, porém, não era de meias palavras. E eu, com medo de não acertar outra vez, me pus na defensiva, aguardando – a qualquer momento, Salustiana se levantar e ir embora. Ao descer do táxi, na esquina da rua, ainda cochichou: amanhã, será melhor.