quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Vanda

Nem desconfiava de Vanda. Quando a pressenti, foi o talhe que vi. Então pensei: essa não me escapa. Esperei que voltasse, mas, quando deu comigo, os olhos enviesaram. De soslaio, esquivou-se do sol, e – desajeitadamente, tentou se ajeitar. Não partiria sem mim. Com ela, a manhã envileceu. Agora, sempre que a encontro, finge não me ver.

Verde

Havia tempo. Começou a brincadeira: os dedos deslizando, sentindo o frio, a certeza, que não falha. Cuidadosamente, pousou o medo, enquanto, no sofá, descansava do tédio, que era aquele momento. Abriu os olhos e já não estava lá. Quem o deixara ali só a madrugada poderia dizer. O vento varou-lhe o peito. Na parede, o vermelho, que nunca fora verde.

Beijo

Faltava coragem. Porém, quando a azia voltou, soube que o chá não lhe entrara bem. Apressou o passo. Das prateleiras, milhares de caixas o espreitaram. Disfarçou o sorriso, mas – por dentro, o peito era chama. Por acaso, esbarrou na menina, que, displicentemente, a mão mirrada, atirou-lhe violento beijo.

Nossas “espadas”


Foi o escritor Milton Filho, de Ribeirópolis, Estado de Sergipe, que, ao comentar, no Portal Literal, “O caboclo de Capanema”, me deu a permissão de continuar com esses escritos. Em seu comentário, Milton cita a “Espada-de-São Jorge”, planta que integra a lista de vegetais benfazejos, que minha mãe costumava cultivar. Essa “espada” – diferentemente da “Espada-de-Joana D’Arc”, constitui-se em uma haste não muito grossa, roliça e comprida, mas que – agressiva, afina-se na ponta, enquanto a da guerreira começa, no tronco, meio redonda, mas – à medida que cresce, torna-se larga, aberta, mas, quando chega à ponta, afina-se em forma de estilete. Outra diferença entre as duas “armas” diz respeito às cores delas. A do macho é verde, com umas nesgas meio escuras pelo meio. Já a da fêmea possui as bordas amareladas, que servem de contorno ao miolo da folha, que também é verde, com rasgos quase negros, muito parecidos às nesgas da outra. São hastes duras, fortes, resistentes. Não vergam com facilidade, e – para colhê-las, faz-se necessário certo esforço, pois não se deixam quebrar. Somente a golpes de faca é que podem ser abatidas. Mas, para que servem as tais “espadas”, já que não são dotadas de beleza? Para ambientes internos, não são recomendadas. Muito pelo contrário. Dentro de casa, por exemplo, podem se tornar perigosas, principalmente às crianças, que costumam brincar por toda parte. Eu nunca vi, mas, me contaram, que, no interior do Estado, uma das serventias da “Espada-de-Joana D’Arc” era tirar a panema, ou seja, a má sorte, a pissica, a urucubaca. Diz-se do sujeito panema, aquele que não vai bem nos negócios: o caçador, que sai para a espera e volta sem caça; o pescador, que vai para o rio e não pega nada; o homem solteiro, que não arranja mulher. E como isso se dá? Pasmem, mas é por meio de surras, que devem ser dadas no infeliz, em – pelo menos, sete sextas-feiras seguidas. Após a sova, o sujeito deve se banhar no rio, esfregando no corpo alguns tipos de ervas, que colaboram nos efeitos curandeiros da “espada”. Se utilizar sabão, esse deve ser grosso, e – quando estiver se banhando, o elemento tem de dizer três vezes: sai, panema! Volta para quem te mandou! Possuo alguns relatos, dando conta de que – após a realização do esconjuro, algumas pessoas da própria comunidade do panema – homens, principalmente, antes bem sucedidos em suas transações, passaram – imediatamente, à condição de azarado, o que prova a eficácia do remédio, nos dois sentidos dele: a cura do empanemado e o reverso do mal a quem lhe deu origem. Quando isso acontece, facilmente se identifica o malfeitor. Às vezes, é um vizinho ou até mesmo um compadre invejoso. Ora, contra males dessa natureza, Milton Filho me informa, que, “pelo sim, pelo não”, ou seja, na base do melhor prevenir do que remediar, na casa dele, há um pé de “Espada-de-São Jorge”. Acho que faz muito bem, meu amigo, conservar um tipo de planta como esse, pois – verdadeiramente, nunca se sabe em que tipo de “buraco” estamos metidos. Gente malvada, em todo canto tem. A inveja existe, sabiam? E, na maioria das vezes, ela nos joga para o atraso. Um olhar enviesado – o mal olhado, pega, mano, que não é brincadeira! Dá uma moleza no corpo, que o sujeito só tem vontade de estar deitado! Bate uma sonolência, que a pessoa não para de abrir a boca, não tem ânimo para nada. Outro dia estava assim! Sabe que fiz? Arranjei com um amigo três limões-galegos, e – três dias consecutivos, após parti-los em cruz, mas desprezando a quarta parte, tratei de tomar banho com eles e com água de sal virgem. Era mandinga, olha! Pois não é que passou? Voltei ao normal, mais feliz do que antes, até! Inteligente era minha mãe, que não se descuidava dessas coisas. Estar segura era com ela mesmo. Não relaxava nunca! “Espadas”, cipós, até caroços de frutas secos... tudo servia para nos livrar do mal.

Nossas “espadas”, hoje, de que nos protegem, hein?

O Caboclo de Capanema

Quando postei a crônica, “O pião-roxo de Capanema”, no Portal Literal (www.portalliteral.com.br), não imaginei, que fosse tão longe, tendo sido bem aceita pelos escritores que visitam o site constantemente. Foi e muitos deles, que chegaram a comentar o texto, fizeram referências a outro tipo de planta – também muito conhecida por mim, e que possui “propriedades” muito semelhantes às do pião-roxo. Não! Não sou feiticeiro! Pelo amor de Deus, não saiam por aí a me atribuir tal alcunha. Nada mais além do que um simples caboco paraense, sou apenas um escritor, tentando reaver certos “lances” pregressos da vida, do tempo em que coisas simples serviam de escudo contra os malefícios do azar. A planta referida anteriormente é a “comigo-ninguém-pode”, que, igualmente ao pião-roxo, era cultivada com muito esmero, mas, que – por se tratar de um tajá, era mantida com muito cuidado e sempre distante das crianças, que – inocentemente, poderiam nela passar a mão e levá-la à boca, o que seria muito perigoso, pois, como toda planta desse tipo, provoca coceira, vômito, e – dizem, poderia até matar. Não sei. Nunca vi alguém falecer de ingestão de “comigo-ninguém-pode”. Para com ela, minha mãe dedicava especial atenção. Quando em um “vaso” – que podia ser até uma lata vazia envolta em papel colorido, permanecia em lugar estratégico da casa: atrás de uma porta, além de ser o ideal, mantinha-a em discrição, escondida de olhares maldosos, que ela combatia. Em noites de lua, mamãe costumava colocá-la para fora de casa, no terreiro, para que “pegasse” o luar. Isso – dizia a mulher, servia para renovar as forças benéficas do vegetal. Em épocas específicas, das quais já não me recordo mais, a planta – lembro-me bem, costumava receber reforços (coisas esquisitas, que não valem a pena enumerar). Hoje, o “comigo-ninguém-pode” deve andar por aí, meio esquecido, substituído – quem sabe, por cercas elétricas, portões de ferro, carros blindados, guardas-noturnos, circuitos internos e externos de câmeras de vídeo, vigias, cães e outras coisas que o valham. Assim como a figa de pau-de-Angola, a ferradura – que não era de ferro, mas, de madeira, e o pé de coelho colocados atrás da porta da rua, o “comigo-ninguém-pode”, hoje, pode muito pouco. Quase nada. O trevo de quatro folhas trazia boa sorte, a raminha de arruda atrás da orelha espantava o mau-olhado, que dava quebranto, o sinal da cruz feito na testa ao sair de casa combatia a urucubaca, e o se levantar da cama com o pé direito livrava – por exemplo, o sujeito de perder o ônibus de manhã cedo para ir ao trabalho. O dente de alho no bolso da calça ou da camisa espantava os maus fluidos, não passar por debaixo de escada evitava a panema, não cruzar com gato preto na rua era certeza de bons negócios, e não sair de casa em sexta-feira treze era garantia de sossego. Eram tantas as armaduras, tamanha a proteção. Nesse campo, mamãe ganhava de longe os melhores e mais sofisticados esquemas de segurança. Ela também benzia. Contra várias doenças: espinhela caída, garganta inflamada, dores de toda espécie, rasgadura. Mas tinha uma que mais me impressionava: a cura de esipla. O paciente sentava e mostrava o pé lesado para a mulher. Ela ia lá dentro de casa, e – quando voltava, trazia um cotoco de faca, separado somente para esse tipo de coisa, que ela guardava em uma caixa de sapato, junto a outros apetrechos do ofício. Ela sentava em um banquinho, colocava o pé da pessoa sobre o joelho, e – então, dava início à reza, mas, em voz tão baixa, que ninguém entendia nada, e sempre com a faquinha na mão, esgrimindo, sempre em forma de cruz, a arma sobre o pé da vítima – mas sem tocar nele. Em dado momento, ela cessava o cicio e perguntava ao doente: o que corto? Ele então respondia: esipla. Ela retrucava: esipla eu corto. O ritual se dava por três vezes e em três dias consecutivos ao fim dos quais o processo de cura se completava. Foi daí, desse procedimento, que surgiu a expressão: essa faca está mais cega do que faca de cortar esipla, utilizada até hoje. Ainda há muito mais histórias para contar. Pena, que, hoje, o “poder” disso tudo ande distante.

Mas, feitiços, até hoje existem.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

O pião-roxo de Capanema


Foi na cidade de Capanema, região nordeste do Pará, depois de longo tempo, que vim encontrar de novo a prática de um costume paraense, que há muito não via. Em Belém – cidade onde nasci, por lá era comum se encontrar, na frente – plantado no chão, ou na entrada da casa – em um vaso, um pé de pião-roxo. Diziam os mais antigos, que essa planta tinha o poder de espantar coisas ruins: mal intencionados, invejosos – sempre a carregar “olho-gordo” consigo, azar, “moleza”, etc. Minha mãe, profunda conhecedora dessas crendices, não ficava sem um pé da planta em nossa casa. Às vezes – muitas, aliás, não satisfeita com a presença do vegetal às proximidades da residência, danava-se – sempre às sextas-feiras, a dar surras – por dentro e por fora, no imóvel, com galhos da planta. Eu, quando a vi pela primeira vez, fazendo isso, indaguei: “Mãe, por que a senhora tá fazendo isso?” Ela, sem parar de bater nas paredes, portas, caixilhos e janelas, mas já demonstrando algum sinal de cansaço, respondeu: “É prá espantar os maus-olhados, meu filho.” Eu não sabia bem o que era aquilo – mau olhado, mas, só pelo jeito de ela falar, deduzia que não era coisa boa. Mais tarde, já refeita da luta (sim, porque, na verdade, aquilo se constituía em uma verdadeira luta do bem contra o mal), após ter tomado um banho, preparado com ervas recolhidas do quintal, ela me chamava para explicar, dando detalhes do esconjuro. Sentada em um banquinho de madeira, no terreiro da casa, ela me colocava entre as pernas, e – iniciando a conversa, punha-se a catar meus piolhos. Nesse momento, eu podia então sentir do corpo dela o cheiro agradável das ervas, que, amassadas e esfregadas com a água do banho nas palmas das mãos, desfaziam-se em milhares de pedacinhos, que permaneciam – aqui e ali, colados ao corpo da mulher até que ele, entregue à brisa da manhã, secasse por completo. Sim, porque, conforme rezava a tradição, depois de banhos como esses, a pessoa não podia se enxugar, senão os efeitos dele não se realizavam. Por isso, ela ficava por um bom tempo ali, ainda molhada, esperando... Dizia-me, então, que, ultimamente, as coisas não vinham muito bem dentro de casa: o dinheiro andava vasqueiro e – por isso, a comida sempre regrada; as doenças – parece uma coisa, a afligir a todos quase de uma só vez; o pai, que não ia bem no emprego, alvo de encrencas dos falsos amigos; até a criação de patos e galinhas atingida pela pevide. Esses eram, portanto, os motivos do “descarrego”, que, em suma, sintetizavam-se no seguinte: afastar de casa toda e qualquer mandinga, que havia contra a família. A própria vizinhança era incluída na lista dos mandingueiros, aqueles que não podiam ver as meninas usando um vestido novo, que não se contentavam com a geladeira adquirida à prestação e com muito sacrifício, enfim, tudo isso sendo “engolido” com muito falatório maldoso, típico dos invejosos. Minha mãe era católica, sim, mas não dispensava entre os santos do oratório, quase escondido em um canto do quarto do casal, umas imagens de entidades cultuadas pela umbanda. A eles, ela – toda noite, acendia uma vela e fazia seus pedidos e orava contritamente. Não costumava freqüentar templos, a não ser em ocasiões especiais. O pequeno pé de pião-roxo, solitário na porta da casa, chamou-me atenção, quando eu passava por ele. Lembrei-me de tudo, e – em menos de um minuto, conclui então que ele não se encontrava ali por acaso. Fora plantado propositalmente, quem sabe por alguém, que – como minha mãe, pensava que a planta possuísse poderes sobrenaturais de afastar os malefícios. Já a defumação, aplicada depois da surra na casa inteira e até nos membros da família, servia para atrair fluidos benfazejos. Certamente, que a pessoa, que plantou o pião-roxo de Capanema, possuía os mesmo motivos, que sempre levaram minha mãe a manter um pé da planta na frente de nossa casa.
Antigamente, uma simples planta, servia para nos proteger.